Problemas e ameaças

Apesar do Parque Estadual do Turvo ser reconhecidamente importante como Unidade de Conservação no estado, abrigando uma rica biodiversidade, com diversas espécies restritas às suas matas no âmbito estadual, o parque também possui ameaças à sua biodiversidade. O Plano de Manejo lista as seguintes:

  • Necessidade da conexão com as extensas áreas de floresta em território argentino contíguas ao Parque e relativamente contínuas até o P.N. Iguaçu, no Paraná, para garantir a persistência de espécies de aves e mamíferos de médio e grande porte, incluindo espécies globalmente ameaçadas;
  • Risco de isolamento pelo desmatamento acelerado no lado argentino e projetos de construção de barragens no rio Uruguai, nas proximidades do Parque ou compreendendo seus limites;
  • Caça furtiva;
  • Extração clandestina de jabuticabas;
  • Contaminação das cabeceiras dos arroios situadas fora do Parque por agrotóxicos e resíduos urbanos;
  • Pressão turística acima da capacidade da infra-estrutura e pessoal disponível;
  • Estrada que dá acesso ao Salto do Yucumã corta áreas de mata primária ao longo de 15 km, favorecendo o ingresso de espécies exóticas, acumulando resíduos, risco de atropelamento de fauna e contaminantes e afugentando e matando animais.

Caça

A caça está entre os impactos mais preocupantes à fauna ameaçada de extinção que ocorre no parque, especialmente mamíferos e aves cinegéticas. O problema é cultural, ocorrendo desde a chegada dos imigrantes até os dias atuais. A estratégia de caça mais comum no parque é a ceva a partir de saleiros, onde o caçador atrai os animais através do depósito de sal ou grãos, e espera em um jirau, de onde atira nos animais. Alguns animais também são caçados no entorno do parque, quando saem para se alimentar em lavouras e outros locais.

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Anta caçada em Derrubadas. Foto: Acervo do Parque Estadual do Turvo.

Perseguição a predadores

Vinculada à caça está também a perseguição a predadores, sobretudo felinos e aves de rapina, que em geral ameaçam animais domésticos nas propriedades lindeiras ao parque. Historicamente sabemos de casos surpreendentes, como o abatimento de onças-pardas, onças-pintadas e até mesmo de uma harpia.

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Onça-pintada morta em Derrubadas. Foto: Acervo do Parque Estadual do Turvo.

Pesca

Por ter grande área de rio com as margens protegidas o parque é muito rico em relação à fauna de peixes, tendo no rio Uruguai exemplares fascinantes de espécies como o dourado e o surubim. Também é um dos últimos locais onde no rio Uruguai ocorre a piracanjuva. Tudo isso torna-se tentador aos amantes da pesca, que ilegalmente se arriscam para pescar em águas proibidas, contribuindo para a degradação da biodiversidade do Turvo.

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Pescador flagrado no Porto García. Foto: D. Meller.

Invasão de espécies exóticas

Espécies exóticas invasoras estão entre as principais causas de ameaça à biodiversidade atualmente. No parque existem alguns casos bem preocupantes, como a invasão da rã-touro nas cabeceiras de riachos próximo à áreas antropizadas – como o entorno e as estradas que cortam o parque – e a uva-do-japão, que no parque está se proliferando através dos riachos que à beira do parque e ao longo da margem do rio Uruguai. Ambos casos necessitam de planos de controle e erradicação. Em relação à uva-do-japão já existe uma parceria em andamento com o Instituto Pró-Turvo.

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Rã-touro na Lagoa das Marrecas no PE do Turvo. Foto: D. Meller.

Ferais – Cães e gatos

Semelhante ao caso anterior, cães e gatos podem habitar como animais selvagens áreas nativas, incluindo Unidades de Conservação. Cães também podem estar associados a atividades de caça. Em ambos casos a presença de cães e gatos é prejudicial às espécies nativas, não só por caçarem animais silvestres, como roedores e aves, mas também pelo potencial de disseminação de doenças. As raças de cães farejadores que aqui são encontradas são os veadeiros e os americanos, ambos cães de porte que facilmente podem abater animais como cutias, veados, etc. Para o caso também seria importante o trabalho de alguma ONG em áreas no entorno do parque, para evitar que cães farejadores de moradores próximos ao parque tenham liberdade para invadir as matas do parque.

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Cães ferais (2 veadeiros) na Estrada do Porto García, PE do Turvo. Foto: D. Meller.

Hidrelétricas do Rio Uruguai

A montante – Foz do Chapecó, Projeto Itapiranga e outras

A variação no nível do rio, em função da operação das hidrelétricas à montante do parque, tem causado um desequilíbrio no ecossistema do Salto do Yucumã. Naturalmente o rio variava conforme as estações de seca e chuva, no entanto, essa variação era lenta e ocasional. Com as hidrelétricas essa variação é muitas vezes diária, o que acaba afetando algumas espécies, como a bromélia-do-rio – cada vez mais rara no parque – e também peixes, que ficam empoçados quando o rio baixa rapidamente.

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Mortes de peixes são registradas com frequência nos lajedos do Salto do Yucumã, ocasionadas pela rápida variação em função das hidrelétricas situadas à montante do Salto, sobretudo a Foz da Chapecó. Se o projeto da Hidrelétrica de Itapiranga for implementado, essas consequências serão ainda maiores. Foto: D. Meller.

A jusante – Projeto Panambi

O alague previsto no projeto de construção da Hidrelétrica Panambi é a principal ameaça à conexão com as extensas florestas de Misiones (Argentina), uma vez que na cota prevista (130 m) o barramento atingiria aproximadamente até o Salto do Yucumã, alagando parte da floresta em ambos lados do rio Uruguai. É importante frisar que essa conexão com as florestas missioneiras é o que assegura no parque a sobrevivência a longo prazo de algumas espécies de aves e mamíferos de médio e grande porte ameaçados de extinção, como a onça-pintada, a anta e a harpia. No momento a implantação da Panambi está suspensa pela Justiça Federal, em função de ação liminar dos MPs em prol da preservação do parque.

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Rio Turvo após enchente do rio Uruguai, com o alague previsto pela Panambi os impactos seriam permanentes. Foto: D. Meller.

Atropelamentos

Outro impacto conhecido em unidades de conservação com uso público em funcionamento são os atropelamentos. No PE do Turvo não se sabe exatamente o quanto a fauna é impactada por conta disso, mas principalmente répteis, como a serpente caninana, são encontrados mortos em dias em que o parque é aberto aos visitantes. Existe, porém, a perspectiva de um monitoramento desses atropelamentos, objetivando conhecer se há locais com recorrência de atropelos, para adoção de medidas preventivas.

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Caninana atropelada na Estrada do Salto do Yucumã, PE do Turvo. Foto: D. Meller.

Agrotóxicos

Um dos impactos menos conhecidos, mas com indícios de relevância no parque, refere-se ao uso de agrotóxicos em seu entorno. O Plano de Manejo prevê que a Zona de Amortecimento seja regrada quanto ao uso de agrotóxicos, porém este regramento deve vir após a criação do Conselho Consultivo, que no momento encontra-se em fase de implementação. Alguns estudos apontam que a fauna de peixes e a de macro invertebrados bentônicos dos riachos de dentro parque é possivelmente empobrecida em função das nascentes situarem-se em áreas agrícolas.

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Falcão-de-coleira (Falco femoralis) encontrado com sintomas de envenenamento em área de borda do parque. Foto: D. Meller.

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